Segunda, 19 Agosto 2013

Bacelar fala sobre Alfa e Beto, Pierre Bourdieu e E.C. Bahia

Erick Issa

No seu retorno à Assembleia Legislativa da Bahia, o deputado estadual João Carlos Bacelar (PTN) concedeu entrevista exclusiva ao Teia de Notícias. Na oportunidade, o parlamentar contou detalhes sobre sua saída da secretaria de Educação de Salvador, falou das denúncias que sofreu à frente da pasta, a situação do colega de partido Uziel Bueno, eleições de 2014, a intervenção no Esporte Clube Bahia, dentre outros assuntos. Confira abaixo a entrevista na íntegra:

Como é que você sintetiza a sua saída da secretaria de Educação de Salvador?

A vida é feita de ciclos, esse foi um ciclo que terminou. Acho que dei minha contribuição à educação do município de Salvador. Deixei a educação numa situação muito melhor. Recuperamos 200 escolas, construímos 15 novas, demos os maiores aumentos salariais dos professores do Brasil. Salvador é hoje a capital que segunda melhor remunera. O professor entra hoje ganhando R$ 3500 e pode chegar até R$ 10 mil na rede. Criei as condições para que todas as salas de aula em Salvador tenham professor. Isso pode parecer um absurdo, mas é a verdade. Vá a qualquer escola pública do Brasil e veja a dificuldade de encontrar um professor em sala de aula. Há um déficit muito grande de professores. É uma educação de mentira, é a falência de uma elite com a educação brasileira, com merenda, com fardamento. Nomeamos 900 professores e estamos chamando mais 500. A prova desse trabalho está nos depoimentos dos pais de alunos e dos professores e diretores. Três anos sem greve em Salvador, fato inédito na Bahia e no Brasil.

E o Alfa e Beto?

Não foi greve. Tiveram manifestações, que é também uma falsa questão. O Alfa e Beto nós vamos ver o resultado no final do ano. O Alfa e Beto não foi uma decisão minha, mas uma decisão de política pública do prefeito ACM Neto, mas acertada. Nós precisamos de sistema estruturado de ensino. No Brasil, onde na rede pública avançou a educação, avançou o sistema estruturado de ensino. Os municípios brasileiros que têm hoje a melhor situação educacional adotaram o Alfa e Beto. O próprio Alfa e Beto é inspirador do Pacto Nacional pela Alfabetização. O Alfa e Beto foi escolhido pelo ministério da Educação do governo do PT como uma das ferramentas mais eficientes para a educação pública no Brasil.

Você vivia um céu de brigadeiro ainda na gestão de João Henrique, quando o prefeito era criticado, mas Bacelar recebia vários elogios, e, de repente, isso mudou esse ano. O que foi que aconteceu?

Não mudou esse ano. Na verdade isso mudou em junho de 2012, no momento em que eu escolhi o nome de ACM Neto pra candidato a prefeito do PTN. Eu fui convidado por todos os candidatos a prefeito de Salvador para ser vice-prefeito. Todos diziam que eu tinha sido o melhor secretário de Educação que essa cidade já teve. No momento que nós optamos pelo nome de ACM Neto, aí tudo mudou, mas são questões, infelizmente, da política partidária.

Mas você se considera um perseguido pela imprensa?

Não, de jeito nenhum. Há interesses na minha desestabilização, mas não posso dizer que sou perseguido pela imprensa. Pode ter um ou outro articulista que não goste de mim, que não tenha simpatia por mim, mas perseguido pela imprensa, de jeito nenhum.

Com relação ao seu futuro político, ainda existe a vontade de ser deputado federal?

Isso. Eu quero colocar a bandeira da educação. Eu já tinha uma paixão pela educação e a paixão aumentou na minha passagem pela secretaria. Eu quero colocar a educação como centro do debate no Congresso Nacional, na Câmara dos Deputados. Quero levar para a Câmara essa bandeira pra me associar a pouquíssimos abnegados que fazem isso no Brasil, dentre eles o senador Cristovam Buarque.

O PTN cresceu muito na eleição em Salvador e tem dado dor de cabeça a ACM Neto. O PTN também dá dor de cabeça a João Carlos Bacelar?

O PTN é um partido que vem crescendo, mas não cresceu de um momento pra outro. O PTN saiu de um vereador na Câmara Municipal pra três e de três pra seis, o PTN saiu de um deputado estadual na Assembleia Legislativa pra três deputados estaduais, o PTN saiu de zero prefeito pra sete prefeitos, de 12 vereadores no estado pra cerca de 90 vereadores. Esse é um trabalho que a gente vem fazendo. O PTN não é partido cartorial, é partido que funciona e funciona o ano todo e tem encontros. Nós fizemos agora encontro da mulher do PTN, a gente faz encontros regionais, a gente tem militância, trabalha com juventude, trabalha com escolas comunitárias, trabalha com o movimento negro, com as religiões de matriz africana. O problema é que a exceção do PT e do PCdoB, quando eram oposição, porque também depois eles abrigaram todos os seus militantes na máquina estatal e também se transformaram em partidos iguais aos outros, os partidos só trabalham no período eleitoral. O PTN não. O PTN tem um forte trabalho comunitário na cidade de Salvador. Que partido reúne os seus suplentes? O PTN reúne mensalmente os suplentes, passamos um sábado para ouvir as lamentações, as queixas. É um partido orgânico e aí dá resultado. Como eu tenho sido democrático, como é um partido que não tem dono, também dá muito trabalho, mas não é verdade que dá dor de cabeça ao prefeito. Nas grandes votações que o prefeito teve na Câmara, quem decidiu foi o PTN, porque o PTN, além de ser a maior bancada, tem vereadores com inserção em outras bancadas e consegue ampliar o número de vereadores que vai além da nossa bancada, mas nós fomos decisivos em todas as votações. A gente demora até pra decidir, porque como é um partido grande, tem discussão, mas não dá trabalho. Eu tenho um excelente relacionamento com os vereadores, agora eu não sou o dono do PTN, eu tenho que ouvir o que cada pensa e expressa.

bacelar copia
Porque o ex-prefeito João Henrique não quis o PTN?

Aí só o prefeito João Henrique pode responder. Agora, o PTN convidou e o convite continua de pé. O PTN está de portas abertas para o prefeito João Henrique.

E a situação de Uziel Bueno? Ele está sendo cortejado por vários partidos.

Eu retornei à Assembleia Legislativa. O deputado sabia que a permanência dele na Assembleia era provisória e no máximo iria até abril do próximo ano. Os fatos anteciparam meu retorno, inclusive para o benefício futuro dele. Um fato que pesou muito para que eu voltasse à Assembleia era cuidar da organização do partido e cuidar também da minha candidatura, mas estamos juntos e ele vai ser candidato a deputado estadual pelo PTN e será um dos deputados estaduais mais votados, não tenho a menor dúvida.

O PTN vai marchar com o candidato de oposição nas eleições de 2014 ou vai até o fim por João Gualberto?

Sim. João Gualberto é oposição. Nós estamos trabalhando os nomes do governador Paulo Souto, de João Gualberto e do ministro Geddel Vieira Lima.

E José Carlos Aleluia?

Sim, José Carlos Aleluia, mas é porque eu falei o nome do governador Paulo Souto. Eu trabalho pra que as oposições estejam unidas. É esse o trabalho do PTN.

Por um bom tempo você foi bombardeado com denúncias da Pierre Bourdieu. Qual sua parcela de culpa no que foi noticiado?

Teve um incêndio no prédio da secretaria, atribuíram a mim. Disseram até que eu falei onde ia ter o incêndio, que passava em uma sala, não passava na outra, era um incêndio seletivo. Acabou o relatório e a polícia nunca disse o final das investigações e eu estou inocentando, mostrando que foi um problema elétrico. O secretário de Segurança chegou a dizer que esse era um inquérito que ia ser feito bem feito, dando a entender que na Bahia tem inquérito bem feito e inquérito mal feito. Essa forma de contratação via ONG vem há mais de 10 anos, a prefeitura herdou isso do governo do estado. Tem vários convênios com diversas ONGs na prefeitura, em outras secretarias, não é só na educação. Quem indicou a Pierre para a secretaria foi a Uneb. Eu não conhecia nenhum dirigente, nunca conheci nenhum dirigente. Já saiu (na imprensa) que eu apoiei o presidente da Organização a vereador pelo PV. Eu só apoiei candidato a vereador do PTN, nem fomos coligados. Agora, para que eu faça uma liquidação de um processo na secretaria, pra que pague, passa pelo Fundo Municipal de Educação, passa pelo setor técnico, passa por controle interno, vai à Procuradoria Geral do Município, um órgão externo, e volta pra que o secretário assine. Um processo desses da Pierre Bourdieu deve ter duas, três mil folhas ou mais. Secretário não fica fiscalizando nota fiscal por nota fiscal. Eu paguei porque todos os órgãos técnicos da secretaria e o órgão de controle da prefeitura disseram que estava tudo legal, agora se a ONG não recolheu imposto, se a ONG não contratou uma firma inidônea ou contratou firma laranja, isso cabe aos órgãos do Estado verificar, do Estado que eu digo são as instituições públicas, Tribunal de Contas, Ministério Público, polícia. Eu não tenho nada a ver com isso, eu não tenho problema nenhum e quero aqui dizer que enquanto a organização esteve lá, prestou bom serviço, porque ela é o braço operacional da Uneb nesse projeto.

Mas deu problema com atraso de salário…

Foi a partir daí que começou a desandar tudo. Esse é o braço operacional da Uneb no convênio e pode perguntar a qualquer pai de aluno de creche. Era modelo no Brasil o trabalho que a Uneb fazia com o aluno nessas creches. Falaram do valor do convênio, de R$ 100 milhões. Não era esse valor, mas sim R$ 60 milhões. É muito dinheiro, mas sabe quantos funcionários? Aí sim tem uma ilegalidade e eu sempre reconheci e sempre disse isso ao MP, uma terceirização de mão-de-obra, esse convênio tem mais de dois mil funcionários, a folha de salário desse convênio é de quase R$ 5 milhões por mês. Multiplique cinco vezes 12 e vai dar R$ 60 milhões. Os números na educação de Salvador são números altíssimos. Todos os processos a Procuradoria deu parecer favorável, nesse, inclusive, seis procuradores assinaram dizendo que estava correto, então, eu nunca tive intenção, não tenho uma mancha na minha vida pública e vou continuar sem ter, pode ter certeza.

E os R$ 770 mil que o MP indicou que João Henrique e você devolvam aos cofres públicos?

Primeiro que eu não tenho. Eu preciso saber onde é que está esse dinheiro. Eu vou mostrar que esse recurso foi aplicado e é outro tipo de convênio, com outra ONG, aí é com a FEA, da UFBA. Todas as despesas estão comprovadas, não tenho a menor dúvida. Outra coisa, disseram que eu aluguei tablet, nunca aluguei um tablet, não tem na secretaria uma nota fiscal mostrando, então sai um tiroteio de tudo que é lado, mas é do sistema democrático. Os órgãos de controle têm que fazer isso mesmo, tem que investigar, e nós vamos ter que provar que se alguém fez alguma coisa errada, tem que ser punido. O investigar é bom, é necessário pra democracia, agora o pré-julgamento, aí sim, isso é uma distorção, agora investigar, questionar, é função do Ministério Público, do Tribunal de Contas, dos órgãos de controle.

Você não acha que o MP pegou muito pesado nas investigações e ainda o faz no âmbito municipal e esquece um pouco do estadual?

Olha, eu passei esse tempo muito focado no município. Eu vou começar a olhar isso agora pra verificar se isso tem fundamento, mas comigo sempre foram parceiros. Quando o MP disse que era pra suspender esses contratos, eu suspendi imediatamente e ainda instaurei auditoria interna pra apurar. Todos esses convênios têm auditoria interna e que encaminhamos pra Procuradoria Geral do Município.

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Saindo um pouco da política, uma das suas grandes paixões, o Bahia. Como é que você está vendo esse momento de intervenção?

A intervenção, infelizmente, é uma coisa triste, mas que foi necessária. O momento do Bahia é ímpar, um momento de democratização, de oxigenação, da torcida se apoderar da marca, se sentir dona do clube. Isso há alguns anos a gente já vinha perdendo, o torcedor não se sentia dono, parece que a gente dá uma volta no ciclo. Espero que a gente faça as alterações necessárias e que a gente eleja um bom presidente. Defendo um presidente que não pode ser político, não pode ser ocupante de cargo público, tem que ser profissional, que entenda de gerência, de administração, que seja um executivo e que também entenda de futebol, de futebol fora de campo, entenda de mercado de futebol e que também tenha uma visão das transações no futebol, dos centros de poder no futebol, que conheça de tal jogador. É esse o nome que a gente precisa pro Bahia e acho que está na hora dos candidatos começarem a apresentar suas propostas, botarem a cara na tela pra que a gente, como sócio, como torcedor, possa votar.

Já tem candidato?

Não. Estou examinando as propostas e divulgando. Todo mundo que sei que tem uma proposta, pego e divulgo nas redes sociais. Ligo pra meus amigos, eu tenho amigos nas torcidas organizadas, tenho amigos nos blogs ligados ao Bahia, então, tenho feito esse trabalho.

Desses nomes colocados, Rui Cordeiro, Tillemont, Bobô, Virgílio Elísio, Schimdt, Marcelo Guimarães Filho, você tem alguma preferência?

Não. Eu acho que todos são bons nomes, todos são tricolores, agora…

Até Marcelo Guimarães Filho é um bom nome?

É um tricolor. Eu sou torcedor, esse time que está aí foi ele que armou, esse técnico que está aí, foi ele que trouxe. Eu acho que precisamos do novo. Quem já foi presidente, nesse momento, não deve ser. Nós precisamos de um nome novo, precisamos de inovação. Eu acho que quem foi presidente, seja quando foi, não deve se apresentar. Eu acho que é um momento novo, de renovação.

Fonte: politicalivre.com.br
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