Por João Carlos Bacelar

O desprestígio dos políticos fica cada vez mais evidente com a elevada abstenção nas eleições de todos os níveis, em todos os cantos do país; com a eclosão do movimento estudantil em 80 cidades brasileiras que reuniu mais de 1 milhão de pessoas nas ruas em ritual espontâneo e crescente todos nós passamos a ter uma certeza: é preciso modificar o atual panorama nacional, exigir dos políticos mais respeito e cumprimento das obrigações e não abrir novas brechas para que terminem forjando uma representação dos cidadãos. Que não se sentem representados, ao contrário, a reclamação é unânime. Não há nitidez dos atos, dos compromissos assumidos. Afinal, que transparência disfarçada é essa?

Justificativas que não convencem, ausência de projetos exequíveis com a intenção de equacionar descasos a que a sociedade está submetida anos a fio, despreparo, desperdício, abuso de poder, má utilização de recursos públicos, corrupção generalizada, impunidade. Falta de atenção à saúde, à educação, à segurança pública, desaforos diários engolidos pela população…

É bem verdade que tudo isso já estava aí faltava apenas um amadurecimento político maior e recurso tecnológico para encontros em massa públicos e gratuitos. Um pretexto para unir jovens no país e fora dele em prol de uma reação coletiva. Foi aí que as redes sociais ganharam as ruas e os brasileiros passaram a reivindicar seus direitos como cidadãos legítimos.

Claro que não concordamos com o método utilizado em diversos instantes – o travamento das cidades, a depredação do patrimônio público, o cerceamento do direito de ir e vir das pessoas pelos que se auto-intitulam defensores dos direitos de todos.

Ao mesmo tempo que discordamos das ações de baderneiros infiltrados no movimento social abominamos a desfaçatez de alguns policiais que quebram o vidro dos próprios carros para culpar os manifestantes, agridem jornalistas mesmo que identificados. Eles esquecem que também fazem parte do povo e mantém as mesmas reivindicações. Mas ali o álibi ostentado é o da ‘autoridade’. Imaturos desconhecem o poder da reivindicação popular organizada. Ao mesmo tempo acuar policiais em serviço é tão perigoso quanto irracional.

Vimos e ouvimos de tudo. Ex-craques da seleção declarando em entrevista coletiva que não se faz Copa do Mundo com hospitais mas sim com estádios. Certo que para a bola rolar tem que ser no gramado situado em arena moderna, profissional, confortável e que ofereça segurança para os torcedores locais ou visitantes. Mas se houver um acidente esse mesmo público não vai precisar de hospitais? Vai ou não precisar de transporte coletivo rápido e eficiente? Será que não é necessária a presença de um policiamento equipado para garantir a segurança dos cidadãos?

Pois é. Infelizes as mentes que não percebem a amplitude da questão. Com a Fifa gerindo as obras todos os estádios brasileiros prometidos para a Copa 2014 ficaram prontos no prazo acertado e com padrão de primeiro mundo. Por que não também hospitais, escolas, programas de ação social não ganharam investimentos nem padrão Fifa? Será que vamos precisar da Fifa em cada importante segmento para que as mudanças aconteçam??

O Brasil ideal para muitos seria aquele onde a velocidade para aplicação de investimentos e construção fosse a mesma aplicada para a Copa. Parece que o que falta é proporcionalidade. Precisaríamos do mesmo empenho, da mesma vontade política, disse uma jovem entrevistada nas ruas de São Paulo.

No entanto, a tomada simbólica do Congresso Nacional em Brasília e os ataques à Assembléia Legislativa do Rio mostram que a sociedade já não aguenta mais e chegou ao limite o nível de descontentamento nacional.

E despidos de representação os jovens hoje se auto-organizam sem necessariamente depender de sindicatos e partidos políticos, que tem bandeiras rasgadas nos protestos. A independência das organizações surpreendeu os políticos de métodos antigos e alienados e que acreditam apenas na supremacia do poder constituído.

Milhões de internautas brasileiros testemunham a vulgarização da atividade político-partidária, que caiu no descrédito, como apontou o sociólogo espanhol Manuel Castells, um dos maiores especialistas mundiais em novas mídias.

Uma mobilização noticiada internacionalmente em plena Copa das Confederações, ano pré-Copa do Mundo, pré-eleitoral. O que esperar dos políticos? Qual deve ser a postura daqui pra frente? O povo vai sair das ruas para as urnas. E aí??

A sociedade analisa dados reais que surgem vertiginosamente no cotidiano. Mais da metade dos brasileiros são analfabetos funcionais, a evasão escolar em 2012 atingiu 1,6 milhão de crianças e jovens, a grande maioria das escolas do país tem infraestrutura elementar apenas e os índices de avaliação do ensino precisam melhorar e muito.

Ao contrário de outros países que priorizam a educação a pirâmide invertida aqui dita as regras. O Brasil dá mais ênfase ao topo, ao ensino superior do que à base. Resultado: a qualidade vem sendo puxada pra baixo por causa da falta de atenção ao ensino médio que é afetado por causa da piora do ensino fundamental.

Um dos fatores que pode modificar esse panorama e que oferece perspectivas é desde sempre a educação. Que liberta, desperta e exige mudanças. Tem justa razão o espanhol Castells quando afirma que o movimento não é exatamente sobre transporte mas, em algum momento, há um fato que traz à tona uma indignação geral.

E divagando sobre tudo isso vem o pensamento firme de que país rico é aquele que investe mais em educação. Lembram do caso da Coréia do Sul? Sucumbida pelos efeitos de uma guerra sangrenta passou por uma revolução educacional que promoveu seu rápido crescimento econômico e hoje aparece no topo das nações que mais se preocupam com o futuro de seus cidadãos e que tem um dos mais altos padrões de qualidade de vida. Coincidência ou não, o país sediou junto com o Japão a Copa do Mundo em 2002, onde o Brasil ganhou o pentacampeonato. A revolução por lá – ainda bem- rima perfeitamente com educação.

Lá, certamente a educação está em primeiríssimo lugar.

Fonte: Politicalivre.com.br

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