por João Carlos Bacelar

Na semana dedicada aos professores pensei numa singela e carinhosa homenagem ao Mestre Didi, que está de volta ao reino dos ancestrais e com quem muito aprendemos; dono de rica história e instigante curiosidade investigativa de suas (nossas) raízes, um abençoado pelos deuses, que se vestiu com o manto sagrado da inspiração para produzir diversas obras, incluindo livros e esculturas que transcendem a religiosidade e fundem-se ao artístico contemporâneo.

Foi ainda na infância que tudo começou quando Deoscóredes Maximiliano dos Santos iniciou sua trajetória sacerdotal no culto aos ancestrais de tradição ioruba. Homem de poucas palavras mas percepção aguçada. Pertencia à uma importante linhagem sacerdotal africana e se tornou um dos principais divulgadores da tradição iorubana no Brasil. Estudou como poucos a religiosidade nagô. Aprendeu in loco através das viagens intercontinentais a decifrar alguns dos muitos segredos no Panteão da Terra. Foi um guardião de mistérios inerentes à ancestralidade de seu povo.

Respeitou o Brasil com todas suas formações sociais, multiétnicas e pluriculturais. Trouxe para a Bahia a energia transformadora para constituir em 1980 o terreiro Ilê Asipa. Por lá, aliou os ensinamentos de sua mãe, Maria Bibiana dos Santos, Mãe Senhora – uma da mais respeitadas Yalorixás do país – ao resultado das próprias pesquisas. Conseguiu despertar em sua comunidade o interesse e o compromisso em cultuar as raízes.

O Alapini dos Egungun passou então a alimentar o sonho de formar líderes com potencial efetivo para continuar o trabalho de valorização da cultura e religiosidade afro-brasileiras. As vertentes exploradas pelo Mestre, silencioso qual Obaluaiyê, alia história, artes e religião com bases fincadas no espiritual.

Durante todo o tempo de sacerdócio procurou direcionar os olhares para a tradição milenar mantida pelos descendentes de africanos que chegaram escravizados ao Brasil. Em sua arte universal explorava com elegância componentes naturais; palhas de palmeiras, conchas, búzios, mesclados às cores que remetem aos princípios sagrados como o preto, o azul e o vermelho para formar divindades iorubanas. Uma arte ritual de traços inconfundíveis e admirados internacionalmente.

Por que Mestre? Assim o chamamos, nós da comunidade nagô, pela referencia maior em artes sacras, pela abnegação em colaborar decisivamente para ampliar nosso conhecimento sobre a importância do estudo da cultura negra no Brasil.

Nas palavras do escritor Orlando Senna, Mestre Didi, “um ser múltiplo e iluminado, sacerdote e poeta, guru e artista, popular e erudito, rio e ponte”. O prazer e o encantamento em desfrutar de sua sabedoria foi para nós um incontestável presente divino. Para o senhor Mestre inesquecível, o nosso eterno reconhecimento. Kaô Kabecilê.

Fonte: Politicalivre.com.br

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